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Viagem no tempo com o Inspector George Gently

Sábado, 03.09.16

 

Cá volto eu às séries inglesas. Novamente com um inspector da polícia. E desta vez nos anos 60.

Como criança nos anos 60, assimilei apenas o lado bom dessa década, a música e a roupa. A alegria e a frescura de todos os inícios, é o que me lembram os coloridos anos 60.

O inspector George Gently vem-nos lembrar o lado sombrio dessa década. A situação das mulheres, por exemplo, a vulnerabilidade das crianças, a violência juvenil, as drogas, a desconfiança entre comunidades, o racismo. 

 

Gently, tal como o seu nome, é uma personagem amável e compassiva com os agredidos e corajoso e implacável com os agressores. É um homem exigente consigo próprio e com os outros, um homem de valores que procura transmitir ao seu aprendiz, o irreverente John Bacchus. Será através do boxe que pratica desde o tempo de jovem soldado, que demonstra ao jovem o respeito por si próprio e pelos outros, mesmo os adversários. A resposta à provocação de que, com a sua idade, se deveria dedicar à pesca, será pô-lo, gentilmente, K.O.

 

A personagem Gently surge-nos com um modelo de adulto responsável, que conheceu o sofrimento na guerra e na vida pessoal com a morte da mulher, mas que não desarma. Tem um propósito que abraça de forma tranquila, sem dramatismo. É com essa gentileza que lida com o lado B da vida.

 

Mas a série não me impressiona apenas pelas personagens e pelo guião. O cenário e os adereços estão perfeitos. A atmosfera da época. E a música é fabulosa. 

 

 

 

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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 16:05

A personagem: "Inspector Morse" e "Endeavour"

Domingo, 29.05.16

 

 

Já aqui falei de séries televisivas, sobretudo inglesas. Recentemente fiquei viciada no "Inspector Morse": a personagem e o seu cenário, Oxford, os edifícios e as suas cúpulas, a música clássica, os coros, os jardins de casas muito arrumadinhas. Entretanto, iniciou outra, "Endeavour", a personagem Morse enquanto jovem, nos anos 60.

A personagem Morde foge ao estereótipo do polícia e do inspector. Mais, a personagem escapa a quase todos os estereótipos sociais. Terrivelmente independente, inteligente, intuitivo, culto, um "Oxford scholar", o que lhe traz dissabores profissionais. Tem a sorte dos bravos, inicia a carreira de polícia com um inspector, Thursday, que o protege e de quem se torna grande amigo e, mais tarde, já inspector, é acompanhado pelo leal sargento Lewis. A inteligência intuitiva de Morse e a perspicácia prática de Lewis tornam esta equipa muito bem sucedida.

Morse é solteiro, o que lhe dá um certo charme misterioso. Amável com as mulheres, que respeita como um "gentleman", também nessa área vai tendo alguma sorte. As suas namoradas são suas amigas também, o que torna os seus relacionamentos harmoniosos e interessantes.

A música é a sua grande inspiração e consolo. A preencher as palavras cruzadas ou sentado no sofá de copo na mão ou de binóculos a observar os pássaros da janela, ou mesmo a conduzir, a música acompanha-o sempre. Aliás, faz parte de um coro de Oxford desde jovem.  

A sua fragilidade é a saúde e o seu gosto pela cerveja e, de vez em quando, uma bebida mais forte. Com a idade vai-se tornando desencantado, impaciente, rabugento. As suas citações de escritores e filósofos torna-se mais frequente, as frases poéticas ficam a pairar num tom nostálgico e triste. É como se a idade lhe pesasse no corpo e na alma. Irá resistir, no entanto, à ideia de se reformar. Só irá parar quando o coração lhe falha subitamente.

 

Nesta série o que me prendeu é a personagem. Mas de referir que a realização é impecável, a fotografia, a edição, o cenário, é tudo cuidado até ao pormenor.

E não há nada como um jardim inglês para nos animar os dias cheios de notícias tristes e angustiantes. É sempre nos jardins e na música que podemos ir buscar nova inspiração para lidar com o mundo.

 

 

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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 16:17

Livros e filmes: "Guerra e paz" e a alma russa

Domingo, 07.02.16

 

Quantas vezes Pierre, Andrei e Natasha já passaram no cinema e na televisão... Revejo-os desta vez na série inglesa da BBC que está a passar na RTP1 às 4ªs feiras.


O que me impressionou logo no 1º episódio foi a fotografia, impecável, jogando com algumas imagens trabalhadas tecnologicamente até se diluir numa quase aguarela.


O que se impôs a partir do 2º episódio foi a música que se cola às personagens como um diapasão à flor da pele. Num momento rodopia no salão de baile para logo depois acompanhar a perspectiva de uma personagem, o seu olhar, os seus sentimentos e pensamentos.


A partir do 3º episódio já começamos a vislumbrar a alma russa. A alma russa, em Tolstoi, é uma alma grande, do tamanho da sua geografia, liga-se à terra, é filosófica e musical, os seus afectos criam raízes profundas, é comunitária, o clã familiar alarga-se ao clã das amizades.

 

 

 

 

 

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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 10:27

O que é que se está a passar com a série do Poirot?

Sexta-feira, 30.07.10

 

Sim, o que é que se está a passar com a série do Poirot?


Embora não tenha lido todos os livros da Agatha Christie com o famoso detective, contrariamente aos Miss Marple que li todos, há uns que li e reli, os meus preferidos, e este Encontro com a Morte que vi ontem na série, é um dos meus preferidos. Reconheci as personagens mas o guião estava muito rebuscado. A personagem principal, a mãe odiada, é uma das personagens femininas mais arrepiantes da Agatha Christie e aqui estava completamente descaracterizada, muito telenovelística. Além disso, e sem querer estragar o verdadeiro final do livro, o(a) assassino(a) não era nenhum(a) dos(as) mais prováveis, o que dá à história original um interesse acrescido. Aqui na série deram umas voltas e reviravoltas ao guião até se assemelhar a uma telenovela, verdade!, a uma telenovela! Como se os livros da Agatha Christie precisassem de mais exotismos e arabescos para se tornarem interessantes.

 

Este fenómeno, tornar exótico um produto já de si suficientemente interessante, já o vimos n' Os Tudor, série em que a vida de Henrique VIII é transformada num produto pouco histórico para consumo de massas. Se isto não é uma completa falta de respeito com os consumidores finais, os espectadores, o que será? E já nem digo uma completa falta de respeito com a própria história do país, do povo, etc. e tal, e aqui, neste caso da série do Poirot,  uma completa falta de respeito com a autora, Agatha Christie. Quem permite estas amolgadelas culturais?

 

 

 

Aqui também sobre Poirot e a ficção nacional e a preferência do público pelas telenovelas...

 


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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 09:50

Pequenas alegrias: Miss Marple e Poirot

Segunda-feira, 12.04.10

 

Agora que a série Life on Mars terminou, que Flashforward está a perder pedalada e Boston Legal regressou a uma temporada anterior, fiquei reduzida à Lie to Me.

É verdade, Life on Mars foi projectado no futuro e em Marte, precisamente. Pode ter sido mais um sonho do protagonista, mas soou muito bem como final da série, ou como introdução de uma sequência. O parzinho também se resolveu, finalmente. 

Flashfoward, após uma 1ª temporada cheia de ritmo e suspense, começou nesta 2ª a perder pedalada. Seguir cada uma das personagens, em vez do mosaico das diversas personagens, do puzzle confuso que nos desafiava constantemente a preencher, é um duche de água fria.

E, finalmente, em Boston Legal, voltou-se a uma temporada anterior, em que o Denny Crane ainda é levado a sério e o Alan Shore ainda tem cara de bébé.

Assim, ficou apenas a Lie to Me, à 4ª feira. Aliás, uma série muito útil, como já disse aqui.

 

Foi, pois, com uma alegria infantil, que descobri as séries Miss Marple e Poirot da Agatha Christie, na RTP Memória, às 3ªs e 5ªs feiras respectivamente. A minha vida social vai-se ressentir.

 

São estas pequenas alegrias que me animam os dias. Mas a grande alegria, essa, tive-a este fim-de-semana, uma grata surpresa!

 

 

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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 13:06

Viagem no tempo-espaço com um ramo de oliveira

Terça-feira, 30.03.10

 

Esta é a minha semana preferida do ano, a que vai do Domingo de Ramos ao Domingo de Páscoa. Assim como o meu mês preferido é o Maio florido. E a estação do ano, a Primavera. E a flor, a rosa frágil e efémera, mas tão perfumada, de Santa Teresinha.

Num tempo em que se desvalorizam os símbolos, os rituais a marcar o nosso percurso, a dar-lhe um ritmo e um sentido, e a lembrar-nos a nossa condição frágil e transitória, mas única e irrepetível, mantenho só para mim os meus próprios marcos. E esta semana é um deles.

E não consigo evitar, tal como o protagonista do Life on Mars, viajar no tempo até essa Páscoa nos finais dos anos 60, em que levei um ramo de oliveira, tal como todos nesse Domingo levaram, nesse Domingo de Ramos.

Eu era, digamos, o que se pode chamar uma criança impressionável, levava tudo muito a sério. Vivia a realidade como se fosse um filme e via os filmes como se fossem realidade. Aquele ramo de oliveira simbolizava a paz. Protegi-o como a uma preciosidade.

 

Hoje, depois do regresso no tempo-espaço, vejo o terrível paradoxo da natureza humana nesse percurso de Cristo, aclamado e acarinhado pela multidão, para pouco tempo depois escolherem Barrabás. Este é um dos dilemas da natureza humana.

O próprio percurso de Cristo, nesse período, revela-nos, de certo modo, a história humana que se repete pelos tempos sem fim todos os dias e em todos os lugares do mundo. Revela-nos que a paz é efémera, um impulso frágil, um entusiasmo. Como se as pessoas não conseguissem nela permanecer por muito tempo ou não conseguissem coabitar sem conflitos. Cristo foi acarinhado pela multidão nesse dia de ramos... para, na hora da verdade, em que a paz era mais necessária, o discernimento, a consciência, a empatia, ser esquecido e abandonado.

Esta é uma visão muito simplista da história, eu sei, Cristo tornou-se incómodo para os representantes religiosos (esqueço-me sempre dos termos correctos, enfim, para a hierarquia religiosa, os sábios, os doutores, que um dia o tinham ouvido em menino no templo). A sua mensagem comprometia a sua posição, tal como hoje, os representantes da hierarquia, e já nem me refiro apenas à Igreja que até tem insistido nisto, mas ao poder temporal. Preferem calar a escravização em curso do povo que supostamente representam porque os elegeu, a perturbar a lógica injusta e ilegítima de privilegiados (a "nova elite") e escravos (o contribuinte de fracos rendimentos e o reformado indefeso). Sim, a mensagem de Cristo comprometia a diplomacia conveniente com o poder de Roma.

 

Mesmo que Cristo tenha definido as fronteiras naquela frase A César o que é de César, a Deus o que é de Deus, não se submeteu à lógica da linguagem do poder, colocou-se num plano imune a essa lógica terrena, o seu reino não era deste mundo, e isso era incompreensível, inaceitável. Ainda hoje me interrogo: a que é que Cristo se referia, em que plano ou dimensão, quando define aquela fronteira enigmática?

Inclino-me a pensar que essa frase ainda hoje é mal interpretada por muitos. Porque a mensagem de Cristo compromete, desde logo, esse limite, ao colocar todos na dimensão de filhos de Deus, todos, sem excepção, numa irmandade igualitária. Isto implica a libertação da escravidão, a sua mensagem não pode conviver com donos e escravos, com a linguagem do poder. E os homens que espalham a mensagem não podem ficar indiferentes a essa lógica que escraviza, simplesmente não podem. A sua mensagem também implica a dignificação da vida de cada um, como única, preciosa, irrepetível. Novamente, o que fazeis ao mais pequeno de vós é a mim que o fazeis.

 

Mas poderia a frase significar que estes dois planos, o terreno e o divino, nunca se encontram, nunca coexistem? E, tal como no filme Rio sem Regresso, quando Marilyn sonha viver num lugar onde as pessoas sejam tratadas como seres humanos, Robert Mitchum responde: Isso é no céu...? Como se não fosse possível viver essa paz e respeito mútuo no plano terreno? Mas não faz sentido. Essa é a lógica do mártir, e ficaria por aí, pela sua afirmação libertadora através da sua morte, e pela repetição de martírios sem fim à vista que não seja perpetuar a vítima e reforçar o poder do predador. Já para não falar dos mártires de que não sabemos, essa pena máxima silenciada, sem julgamento sequer...

 

E tudo isto num simples ramo de oliveira que levei nesse Domingo de Ramos numa Páscoa de finais dos anos 60...

É por tudo isto que em vez de paz prefiro dizer empatia, porque é a capacidade humana de sentir o que o outro sente, a única que permite essa libertação da lógica da linguagem do poder, que cria conflitos porque não sabe (não pode) viver em paz, porque precisa de dominar e manipular para preencher o seu vazio interior, porque é o ódio e a morte que o motivam (e que também definem a sua acção).

E sim, é possível aprender a viver na cultura da amabilidade na diversidade. E sim, é possível identificar as sementes de violência e os "falsos deuses" que dela se alimentam. E sim, é possível a responsabilidade individual, cada um no seu papel, na colaboração mútua. E sim, é possível uma nova organização social mais livre e, ao mesmo tempo, mais equilibrada e justa e, por isso mesmo, mais inteligente também.

 

 

 

Também aqui: sobre a composição de Jesus Christ Superstar.

 

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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 13:01

"Lie to me": uma série muito útil

Quinta-feira, 04.03.10

 

Já aqui falei nesta série Lie to me, mas não cheguei a evidenciar toda a sua utilidade.

Trata-se essencialmente de um grupo de investigadores que apoia o trabalho policial, sobretudo nos interrogatórios. Tim Roth é muito convincente no papel de Dr. Cal Lightman. E as restantes personagens são complexas q.b. e nem sempre seguem as regras, o que torna a série mais credível. Os diálogos são cuidados e adequados. E as situações são muito actuais, cobrem uma realidade que está aí, como a escravatura urbana camuflada (no episódio mais recente que vi, por exemplo, abordou o problema dos imigrantes sem protecção social e, mais especificamente, as barrigas de aluguer).

 

Ora bem, como estudiosos da comunicação não-verbal, sobretudo da expressão facial, conseguem identificar, com uma mínima margem de erro, as emoções básicas como o ódio, a raiva, o desprezo, a vergonha. E algumas mais difíceis de captar, a que eles chamam micro-expressões, pormenores tão subtis que escapam facilmente ao investigador mais treinado, como o desgosto ou a mágoa, importante no caso do suicida potencial.

Mas o mais interessante é mesmo a diferenciação da verdade da mentira. Incrível. Conseguir identificar a mentira na expressão facial, a partir de diversos movimentos dos músculos faciais.

 

Sempre fixei a minha atenção na voz, treinei-me desde que me conheço para distinguir timbres, entoações, tonalidades, cores, das vozes mais diversas. Assim como pronúncias, entretenho-me, por exemplo, a identificar os locais de origem das pessoas. A sério!

E não apenas vozes do meu quotidiano, digamos assim, também as vozes dos actores, por exemplo. Identifico-os pela voz. 

Também me treinei para pressentir as emoções pela voz. Raramente me engano.

 

Mas na expressão facial, sou uma ingénua. Frente a frente, tendo a acreditar e a confiar no que me dizem. Isto é, na presença da pessoa, parto sempre do princípio que não tem qualquer razão para mentir.

É estranho e paradoxal, detectar mais facilmente a mentira à distância e pela voz, do que na presença da pessoa. E mesmo que alguém me diga que o que me disseram não corresponde à verdade, ainda assim hesito. Estranho, não é?

Por isso gosto tanto desta série! Já aprendi umas coisas. Pequenas nuances em que geralmente não reparamos.

Penso que da próxima vez já conseguirei detectar uma ou outra mentirita. Não é por nada, a maior parte das vezes, as mentiras são inofensivas e até amáveis, mas quando for o caso de alguma mais significativa e que possa fazer alguma diferença, não voltarei a cair que nem uma patinha...

 

A série passa às 4ªs feiras, na FOX, sempre depois das 22:00.

 

 

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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 16:29

"Life on Mars"

Segunda-feira, 22.02.10

 

Meus queridos amigos, não se pode voltar para trás. Simplesmente não se pode.

Até o protagonista de Life on Mars, que foi parar a 73 por engano, não se sente em casa. Desconfio que não é apenas por ter perdido tudo, a família, os amigos, o trabalho, o habitat. É uma diferença cultural imensa! De hábitos, de valores, de referências, de coordenadas.

Podemos até especular: ah, os loucos anos 20, os românticos anos 40, ou até ser mais ousados, o tempo dos salamaleques e dos duelos, porque não?

Mas hoje temos acesso a essas épocas, pelos livros e pelos filmes, sem os inconvenientes das suas enormes dificuldades.

Estou convicta que cada época exige as suas capacidades de sobrevivência e que se tivessemos o azar do protagonista de Life on Mars de irmos parar ainda mais longe, aos anos 20 ou 40, ou pior!, ao séc. XIX, não sobreviveríamos muito tempo. A nossa resistência de estufa, habituada a vacinas e comprimidos? Impossível mantermo-nos lá saudáveis por muito tempo.

 

Isto tudo para dizer o quê? Que a nível cultural, das referências e dos valores, mesmo os que não são assimilados por todos ou partilhados por todos, há já uma informação, um conjunto de factos, que foram interiorizados na memória colectiva. Factos que não se podem apagar simplesmente. É uma herança de um colectivo.

 

As excepções? As tribos isoladas de alguns pontos do globo, os Amish, os Mórmons, etc. O que implica necessariamente isolamento total ou quase total da contaminação cultural da sociedade, como está organizada.

Também incluiria aqui algumas populações de países mais pobres que, conforme Alvin Toffler previu, estão a ficar excluídas da informação global. E mesmo nos países com recursos, aumentarão essas franjas de excluídos, como ele previu.

 

Para o bem e para o mal, somos portadores de uma memória colectiva, de um conjunto de factos, de dados, de informação, a que já não podemos escapar ou negar. Herdámos esses manuais, esses dicionários, esses acontecimentos, essas alterações, a evolução tecnológica, científica, filosófica.

Voltar atrás é negar tudo isso. A nossa consciência colectiva já deu um salto, nem sei bem se será apenas um degrau ou dois, vejo-o mais como um salto sobre uma falha no caminho. Saltámos por cima de tanta coisa!, mesmo sobre valores éticos e morais que se julgaram intransponíveis.

Por outro lado, passámos a valorizar outros valores: a vida humana, por exemplo, adquiriu outro estatuto, embora ainda com imensas falhas. Na protecção das crianças e dos mais velhos, por exemplo, andámos mal, muito mal.

Mas na aceitação das diferenças de estilos de vida, vejam o enorme salto! As mulheres mais aguerridas pisaram o risco, nunca antes tolerado pelos homens, começaram a participar em áreas e a conquistar direitos. Este é aliás um dos pormenores culturais que mais choca o protagonista do Life on Mars e já se estava em 73!


 

2ª parte do post (ver Nota de esclarecimento):

A complexidade da natureza humana e a complexidade dos comportamentos, das opções de vida, não pode agora ser apagada da nossa memória colectiva, porque isso seria negar o avanço cultural, filosófico, científico. Mas pior!, seria negar a própria natureza humana!

O filme agora aí, Um Homem Singular, mostra isso, essa complexidade. Talvez daí o interesse dos espectadores: tem tido uma boa audiência. Essa curiosidade pode dever-se a Tom Ford, mas alguma coisa me diz que estamos ávidos de uma perspectiva, de uma compreensão, sobre a complexidade humana.

 

Nunca falámos colectivamente sobre isso, foi-nos imposto um modelo de vida, como se se tratasse de uma moda, a camada superficial do tema, a parte espectacular, confundindo público e privado, e ainda por cima uma lei fracturante, que nem sei se é a que melhor responde a direitos equivalentes à da maioria dos cidadãos e à forma como a maioria organiza a sua vida.

Mas agora responder a esse erro com outro erro, é que não me parece avisado e sensato. Trata-se de pessoas, das suas vidas, de naturezas e percursos. E trata-se de liberdade também. Já não podemos andar para trás. Nem seria desejável.

É por isso, a meu ver, que este filme Um Homem Singular, é um bom ponto de partida para uma análise e uma reflexão colectiva, calma e distanciada. Distinguindo os planos, destacando as prioridades, vantagens e desvantagens deste e daquele modelo.

Talvez até dê para, os que se organizam de forma diversa, com diferentes opções de vida e de organização familiar, verificarem se se revêem nas associações e organizações que os representam, ou mesmo na forma como os partidos pegaram (abusiva e oportunísticamente, a meu ver) nas suas pretensões, a forma como o fizeram, perfeitamente inábil. E recomecem do zero. Esta lei não lembra ao diabo, realmente, e poucos darão esse passo, o casamento. Muitos certamente desejariam outro tipo de contrato, equilibrado nos direitos e específico a cada situação.

 

Agora, não dar sequer ao outro o direito de existir apenas por ser diferente, é que me deixa perplexa. De certo modo já esperava reacções excessivas a propagandas que foram, também elas, excessivas, mas negar a existência do direito de existir aos homossexuais? Negar a homossexualidade?

Foi sempre a negar alguma parte da natureza humana, que surgiram as maiores opressões ditatoriais. Esta negação, esta agressividade a que pode chegar este debate, é também um sinal de alarme.

Numa democracia respeitam-se as diferenças e procura-se equilibrar direitos e deveres de todos os cidadãos. É também esse o significado da liberdade. E também foi esse o significado de estar no dia 11 em frente da AR.





Nota de esclarecimento a 20 de Outubro de 2013: Primeiro pensei simplesmente deletar as partes dos posts que já não correspondem à minha actual assimimilação-síntese cultural. Esta mudança afinal até pode corresponder apenas a um regresso à minha consciência vital inicial.

Depois ocorreu-me o seguinte: além de ser batota apagar o que nos deixa hoje perplexos, o quê?, já pensámos assim?, o quê?, porque não utilizar essa transição mental-cultural como um magnífico e útil exemplo de que estamos sempre a mudar, a evoluir, a expandir a consciência?

Portanto, caros Viajantes, a parte deste post após a referência ao casamento entre pessoas do mesmo sexo, já não corresponde minimamente ao que hoje considero lógico-compreensível-viável-legítimo. E vou mais longe: é muito provável que nunca tenha sido uma questão essencial para mim mas apenas uma teimosia mental, um pormenor legislativo que não me pareceu lógico na altura.

Desde que me conheço que aceitei as pessoas incondicionalmente. Cresci rodeada de livros e filmes e isso marca uma pessoa. Penso que parte do choque cultural que senti quando saí dessa cápsula inicial familiar, e dos equívocos que sofri nas interacções sociais e que me tornaram mais tímida e ansiosa do que era inicialmente, se deveram precisamente a esse mundo que assimilara nos livros e filmes que me tinham alargado definitivamente as fronteiras culturais.

Por isso imaginem a minha perplexidade ao reler esta segunda parte do post que já nada me diz pessoalmente. Como perdi eu tempo com pormenores legislativos? Porque me envolvi em debates que hoje já não fazem qualquer sentido? Porque considerei que sabia o que era melhor para quem tentava encontrar uma nova forma de oficializar social e juridicamente uma família?

Mas a primeira parte do post aproveita-se, a meu ver, é uma ideia que me tem acompanhado quendo ouço falar em viagens no tempo ou em contactos com espécies de outros planetas. Isso sim, é que é um desafio mental que vale a pena.


   

 

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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 16:42

Pequenas alegrias: revisitar os anos 70

Sábado, 20.02.10

 

Sendo um exemplar de uma adolescente na década de 70, gostei muito da irreverência de David Bowie, na personagem andrógina provocante e no som original. E gostei de ver que continuou a compor como se o filão nunca se esgotasse, sempre inovador. David Bowie fez da sedução o seu maior trunfo, mais parecia um marciano que tivesse acabado de aterrar no palco. E as fotografias das capas dos discos eram simplesmente fabulosas.

Hoje descobri, numas gravações antigas, uma canção que não conhecia e que fala do vento... let me fly away with you... my love is like the wind... we are like creatures of the wind... fala desse paralelismo do amor e do vento nas árvores... a voz imita o som do vento... a canção é lindíssima, não sei explicar melhor.

 

Revisitei também o som de John Lennon, já pós-Beatles. John Lennon tinha esse sentido artístico-filosófico-político, uma autêntica obsessão, fez do seu activismo uma forma de vida, uma constante performance, essa dimensão da revolta de um Power to the People ou essa utopia poética do Imagine.

É das personagens mais fascinantes dos anos 70, porque os acompanha de muito perto, é o seu rosto, com uma mensagem sempre irreverente. Também não lhes sobreviverá, a aventura que foi a sua vida termina precisamente no último ano da década. 

 

Os anos 70, já o disse aqui, foram de certo modo paradoxais, porque a par de uma sociedade ainda muito fechada e convencional, surgia outra camada, sobretudo juvenil e ligada à arte, muito irreverente e excessiva, muitos deles universitários e activistas, em que a liberdade era pura e simplesmente a ausência de limites.

Talvez por isso mesmo, por essa ausência de fronteiras, foi uma época tão fascinante. E, também por isso, decadente. Mas ainda assim, fascinante.

 

E talvez por isso mesmo vemos hoje um revivalismo nalgumas séries televisivas, como Life on Mars, e nalguns filmes também, como o The Darjeeling Limited.

 

Não deixa de ser irónico, porque também os anos 70 foram revivalistas dos anos 20 e 30, no design de roupa e no cinema. Talvez porque são épocas com traços comuns, como a rebeldia e a liberdade, nas ideias e nos comportamentos. Talvez porque nelas encontraram provavelmente paralelismos estéticos e culturais.

Exemplos de filmes (curiosamente em todos eles entra o Robert Redford): The Way We Were, The Sting e The Great Gatsby.

 

  

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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 00:28

A nossa verdadeira riqueza

Quarta-feira, 13.01.10

 

Continuando esta análise do país e de como recuperar a nossa identidade e dignidade:

Como referi, a primeira qualidade de ser rico é a autonomia: poder organizar as nossas vidas.

Quando me refiro aqui a autonomia refiro-me essencialmente à autonomia dos cidadãos, dentro do possível, e à autonomia da economia, a que cria riqueza. Que neste momento revela poucos sinais de vida.

Sem dúvida que negociámos parte da nossa autonomia, a começar pela económica, com a integração europeia. Mas há inegáveis vantagens nessa interdependência. Não apenas económicas (se houver inteligência para isso), mas sobretudo políticas.

 

A nossa verdadeira riqueza está na capacidade de criar e expandir. E noutra capacidade, tantas vezes esquecida: capacidade de empatia, de relacionamentos saudáveis e estáveis, de relações de confiança.

Aplicada ao país, a confiança adquire uma outra dimensão: sem relações de confiança, de expectativas concretizáveis, de lealdade, de equilíbrio,  a economia estará seriamente comprometida. A base da economia saudável está na coesão social, na confiança.

Confiança nas instituições, nas empresas, nos elementos-chave de uma sociedade. Sem essa condição básica não há economia que sobreviva.

 

E sobretudo a base, o essencial: a energia vital. O brilhozinho nos olhos, o entusiasmo, I'm alive. Ontem, no Boston Legal, a personagem Alan Shore ficou arrumado quando uma ex-namorada por ele abandonada, lhe diz, cheia de ressentimento: Os homens quando envelhecem perdem a paixão... Os teus olhos estão mortiços... Alan Shore só recupera desta frase mortífera quando, em conversa com o amigo, Denny Crane, que também com ele partilha o seu maior pavor (vejam a série se quiserem saber) o ouve dizer com amizade: Ela ainda não te viu em tribunal, aí tu transformas-te! Não, tu não perdeste a paixão! E, de facto, o nosso Alan Shore transfigura-se, é com verdadeira paixão que defende a queixosa e será com tristeza que se despede no final da ex-namorada e é tristeza que verá nos seus olhos também, e já não ressentimento.

 

Isto para dizer o quê? Que além da confiança mútua, nos grupos, nas comunidades, nas instituições, a nossa maior riqueza é a paixão, essa energia vital que nos move, que nos anima. É, por isso, muito preocupante, ler em jornais ou em blogues sobre a geração perdida. Perdida? Não podemos aceitar tal hipótese, que o nosso maior trunfo, os recursos humanos, as pessoas, não consigam vislumbrar uma vida à medida dos seus investimentos pessoais ou dos seus sonhos. Que tenham de encarar um dia a dia medíocre e sem perspectivas. Se as gerações actualmente no poder estão a empatar-lhes a vida, isso terá de ser encarado sem rodeios: o que se passou aqui e o que se passa para isto acontecer?

A minha perspectiva é um pouco polémica, mas terei a oportunidade de verificar se, na prática, se aproxima ou não da nossa realidade. Procurarei, em próximos posts, analisar a situação das gerações dos 26-35 e dos 36-45 anos. Conto com o feedback de todos os que se interessam pelo assunto, claro!, a começar pelos próprios.

 

 

Leitura relacionada: De Sobre o Tempo que Passa, um post sobre o desafio de "viver em comum" para além da aventura individual: Sete pedacinhos de mais além em domingo de chuva.

 

E ainda: Como lixar o Cidadão Comum, e o país, legalmente, isto é, com as leis que temos - 3 e Os cidadãos enquanto contribuintes, consumidores e eleitores. E a tag novas gerações igualmente no Vozes Dissonantes.

 

E ainda: Do Portugal Contemporâneo, Perdendo o sonho e Empregos mal remunerados; e do Minoria Ruidosa, Da geração rasca à geração perdida.

 

 

 

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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 12:47








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